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A FISIOTERAPIA E O ESTÍMULO DO VÍNCULO PAIS ADOLESCENTES-BEBÊ
 



Saúde Pública


A FISIOTERAPIA E O ESTÍMULO DO VÍNCULO PAIS ADOLESCENTES-BEBÊ


LUPOSELI, J.M.C. 1; LIRA, R.M.2; PEREIRA, T.D.1; YAMATO, M.T.2; MARCHESE, D.M.A.3



Introdução:


A adolescência é o período que se caracteriza pela perda da identidade infantil e busca da identidade adulta, sendo, assim, uma fase de profunda instabilidade emocional e mudanças corporais, com grandes diferenças na maturidade biológica e psicológica, e características não homogêneas para todas as idades abaixo dos 20 anos.3 A iniciação sexual precoce somada à ausência do domínio das práticas anticoncepcionais, pode ter como resultado uma gravidez não desejada.1
A OMS (Organização Mundial de Saúde) define como gravidez na adolescência a que ocorre entre 10 e 20 anos incompletos.2 No âmbito sócio-cultural são apontados como fatores potencializadores do risco para a gravidez na adolescência a baixa escolaridade, conhecimentos insuficientes sobre métodos anticoncepcionais e o fato de pertencer às camadas sociais mais carentes.2,4,5,6 Alguns estudos demonstram uma tendência ao estudo étnico, realizados somente com participantes negros, mesmo sabendo-se que as adolescentes brancas também engravidam, porém esses números não são divulgados.7 Os riscos de complicações obstétricas são maiores para as adolescentes de faixa etária mais baixa.8,9 Supostamente a tendência secular de diminuição na idade da menarca tem favorecido a reprodução precoce;3 atualmente postula-se que o risco das gestações adolescentes seja mais social do que biológico.11

         

Quando se percebem grávidas, as adolescentes recorrem primeiro aos parceiros, depois a suas mães e em seguida a amigos.12 Essa questão traz à discussão a condição do pai, o outro adolescente envolvido na situação.

Na revisão de estudos longitudinais o pai parece ter sido esquecido como figura importante para o funcionamento da díade mãe-criança. Os estudos pesquisados não tiveram continuidade após a gestação adolescente, indicando que o desinteresse pela assessoria aos jovens na experiência da paternidade efetiva. Apesar das conclusões de estudos mostrarem uma tendência negativa quanto às conseqüências da paternidade adolescente, alguns estudos indicam que um suporte adequado poderia tornar as conseqüências menos negativas ou até compensá-las. Em geral os estudos apontam um desejo dos adolescentes masculinos de serem pais efetivos. Retratam os preconceitos veiculados com relação a essa condição de paternidade e que não estão contribuindo com o desejo potencial de envolvimento com o bebê e a companheira.7

A gravidez na adolescência produz um grande impacto na vida dos adolescentes, sejam eles femininos ou masculinos; ao contrário da idéia socialmente veiculada de que a mãe seria a maior vítima deste evento, ambos sofrem com a gravidez precoce, embora de forma diferenciada.7

       

De acordo com o Censo de 2000 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 20,79% do total da população residente (±35 milhões de habitantes), eram adolescentes na faixa dos 10 aos 19 anos, porcentagem que combina com os dados da OPAS que indica para 2000 uma população de adolescentes latino-americanos de 19%.3

Contadas no Censo de 2000 do IBGE,14 1,96% da população de mulheres acima de 10 anos, ou seja, 1.377.833 mães adolescentes deram a luz a  1.701.738 crianças, então com menos de 1 ano (1,9% dos nascidos vivos).

Estudos indicam que a gravidez na adolescência é um fator de risco para o baixo peso ao nascer, prematuridade e mortalidade infantil. 3,13,15  Apesar das evidências encontradas na literatura que relacionam a maternidade adolescente com padrões inadequados de interação entre mães adolescentes e seus bebês, na amostra estudada por ÁVILA et al.16 quando comparada com a relação avós-netos, as mães do estudo demonstraram manter relação de apego e segurança com seus bebês, caracterizada por sensibilidade, responsabilidade e níveis altos de comunicação, num contexto adequado e que permitia a exploração por parte da criança em seu ambiente. O estudo indica também níveis mais altos na relação de apego entre mães-bebês que entre avós-netos.

A Fisioterapia aplicada à Pediatria recebe diariamente crianças com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, em muitos casos resultante exclusivamente de estimulação inadequada, baixa ou ausente, por desconhecimento ou baixo vínculo dos pais ou cuidadores com a criança. Percebe-se que a estimulação do vínculo pode ser uma intervenção para grupos de pais e mães adolescentes, a partir da oferta de conhecimento sobre estimulação de seus filhos e do resgate da importância de seus papéis como pais. Porém, essa estimulação deve respeitar as necessidades e expectativas dos pais ao lado da real necessidade da criança.

Objetivo:

O projeto de pesquisa objetiva a intervenção junto aos pais e mães adolescentes no estímulo ao vínculo pais adolescentes-bebês através do incentivo dos cuidados e controle do crescimento e desenvolvimento de seus filhos.

Material e Métodos:

A região atendida pelo PSF Jardim Três Corações, no Grajaú, foi a escolhida para o desenvolvimento do trabalho, uma vez que a Faculdade de Fisioterapia da UNISA  mantém ali atendimento através de estágio obrigatório.

O estudo epidemiológico que descrevesse quantos e quem são os pais e mães adolescentes da região está sendo efetivado por estudo dos dados de prontuário da UBS. A  localização  daqueles que efetivamente cuidam de seus filhos, independente de formarem casais adolescentes, se realizará através de questionários estruturados sobre dados sócio-econômico-culturais e conhecimento de fatos sobre o desenvolvimento de seus filhos, aplicados após assinatura de

Consentimento Livre e Esclarecido; a partir deles se iniciará treinamento que responda às expectativas e necessidades desses pais e das suas crianças; ao final será reaplicado o questionário. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Santo Amaro; preparado o encaminhamento ao Cep da Secretaria Municipal de Saúde.

Resultado Parcial:

Os dados referentes à UBS foram obtidos através do relatório do SIAB (Sistema de Informação da Atenção Básica) emitido em 08/05/2006 e dos prontuários das 8 áreas de abrangência. Estão cadastradas 6.975 famílias, com um total de 25.769 moradores, entre eles  5.014 adolescentes (19,46%) (Tabela 1) e 425 crianças menores que 1 ano (1,65%) (Tabela 2).
Os prontuários de crianças menores de 1 ano revelaram que não há mães ou pais com idade entre  10 e 14 anos, naqueles prontuários em que os dados estavam disponíveis. Dos dados maternos, 6,77% dos prontuários não indicavam idade; e 29,43% dos dados paternos também estavam incompletos (Tabela 3). Foram localizados somente 5 casais de adolescentes pelos dados de prontuário.

Considerados os prontuários com os dados das mães completos, referentes a 358 crianças, 14,53% delas são filhas de mães adolescentes.



Tabela 1. Moradores atendidos pela UBS Jd. Três Corações, de acordo com os dados do relatório do SIAB de 08.05.2006.


 
Tabela 2. População menor que 1 ano atendida pela UBS Jd. Três Corações, de acordo com os dados do relatório do SIAB de 08.05.2006.



Tabela 3. Pais adolescentes. Dados colhidos dos prontuários de crianças menores de 1 ano atendida pela UBS Jd. Três Corações, em junho de 2006. Total de prontuários: 384.

Limitações:


Os dados do  relatório do SIAB podem estar incompletos por se tratar de áreas em implantação. A busca de dados nos prontuários, por seu lado, muitas vezes resulta em diferença de dados, que necessitarão serem corrigidos individualmente. A região não permite o acesso aos moradores sem o acompanhamento de um ACS ( Agente Comunitário de Saúde) ou uma Auxiliar de Enfermagem, dificultando a coleta direta de dados e obrigando a um planejamento bastante minucioso para concordar os horários de atuação, o que prolonga o tempo da coleta de dados para implantação do treinamento.

Considerações:

O total de adolescentes da região, correspondente a 19,46% da população atendida, é bastante próximo da porcentagem calculada pelo IBGE – Censo de 2000, que descreve para o Brasil 20,79% de adolescentes e para o município de São Paulo 17,99%. Esses números também coincidem quando referem-se ao número de crianças menores de 1 ano, já que foi encontrado 1,65% de crianças nessa idade na população atendida, até este momento, sendo que no Brasil essa porcentagem é de 1,90% e no município de São Paulo, de 1,71%.

Em 113 prontuários consultados não foram encontradas as idades dos pais das crianças, número muito superior àquele verificado para as mães, com 26 prontuários sem esses dados.  Essa discrepância pode se dever tanto ao fato das fichas das famílias estarem incompletas como ao fato desses pais serem ausentes para com seus filhos, ficando o esclarecimento na dependência das entrevistas. Qualquer treinamento que seja disponibilizado à população deve-se basear em uma necessidade real da comunidade que somente poderá ser explicitada através do questionário específico. Daí a importância da próxima fase do projeto para a elaboração de treinamento que seja espelho da necessidade real e não da vontade ou voluntarismo dos pesquisadores.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

1. GOLDENBERG, P.; FIGUEIREDO, M. C. T.; SILVA, R. S. Gravidez na adolescência, pré-natal e resultados perinatais em Montes Claros, Minas Gerais, Brasil – Cad Saúde Pública, Rio de Janeiro, 21(4): 1077 – 1086, jul ago, 2005.
  
2.
CABRAL, C. S. Contracepção e gravidez na adolescência na perspectiva de jovens pais de uma comunidade favelada do Rio de Janeiro – Cad Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19 (Sup.2): S283 - S292, 2003.  

3.
RIBEIRO, E. R.O.; BARBIERI, M. A.; BETTIOL, H.; SILVA, A. A. M. Comparação entre duas coortes de mães adolescentes em município do Sudeste do Brasil. Rev. Saúde Pública, 34 (2): 136-42, 2000.  

4.
GAMA, S. G. N.; SZWARCWALD, C. L.; LEAL, M. C. – Experiência de gravidez na adolescência, fatores associados e resultados perinatais entre puérperas de baixa renda – Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 18(1): 153 – 161, jan –fev, 2002.  

5.
TRINDADE, Z. A.; MENANDRO, M. C. S. Pais Adolescentes: Vivência e Significação. Estudos de Psicologia, Natal: v.7 n.1  Natal jan. 2002. 

6.
LEITE, I. C.; RODRIGUES, R. N.; FONSECA, M. C. – Fatores associados com o comportamento sexual e reprodutivo entre adolescentes das regiões Sudeste e Nordeste do Brasil – Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(2): 474 – 481, mar-abr, 2004.  

7.
LEVANDOWSKI, D.C. Paternidade na adolescência: uma breve revisão da literatura internacional. Estudos de Psicologia, Natal: v 6, n 2, p 195-209, 2001.  

8.
RUBIO, R.M.; FUENTES, A.G.; SANHUEZA, E.A.; RODRIGUES, C.S.; ORTIZ, M.V. Reprodución em la adolescencia. Ver. Chil. Obstet. Gynecol. 1981; 56(3): 112-17.  

9. SISMONDI, P.; VOLANTE, R.; GIAI, M. El embarazo y el parto en la adolescente. Rev. Chil. Obstet. Gynecol. 1984; 49(1):41-5.  

11.
VITALLE, M.S.S.; AMANCIO, O.M.S. Gravidez na adolescência. Brazil Pe. News. 2001; set. Disponível: http://www.brazilpednews.org.br/set2001 Acessado: 26.03.2006.  

12.
GODINHO, R.A.; SCHELP, J.R.B.; PARADA, C.M.G.L.; BERTONCELLO, N.M.F. Adolescentes e grávidas: onde buscam apoio? Rev. Latino-Am. Enfermagem. Ribeirão Preto, 2000; 8(2):25-32.  

13.
CUNHA, M. A.; ANDRADE, M. Q.; TAVARES NETO, J.; ANDRADE, T. Gestação na Adolescência: Relação com o Baixo Peso ao Nascer. REGO 24 (8): 513-519, 2002.  

14.
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – SIDRA – Sistema IBGE de Recuperação Automática. Disponível: http://www.sidra.ibge.gov.br. Acessado: 26.03.2006.  

15
. SIMÕES, V. M. F.; SILVA, A. A. M.; BETTIOL, H.; LAMY-FILHO, F.; TONIAL, S. R.; MOCHEL, E. G. Características da gravidez na adolescência em São Luís, Maranhão. Rev  Saúde  Pública  2003;37(5):559-65.  

16.
ÁVILA, S. C.; MALDONADO, C.; SALDARRIAGA, L. M.; VEGA, L.; DÍAZ, S. Patrones de apego en familias de tres generaciones: Abuela, madre adolescente, hijo. Revista Latinoamericana de Psicología. 2004; 36(3): 409-30.

Autores: 1. Fisioterapeutas, Aprimorandos em Fisioterapia em Saúde Pública da UNISA – Universidade de Santo Amaro; 2. Graduandos de Fisioterapia da UNISA; 3. Orientadora, Fisioterapeuta, Mestre em Distúrbios de Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, docente da UNISA.; demais componentes do grupo de DNPM: FONGARO, A.C.; MACIEL, E. S.